
Por pouco não tropeçou na barra da saia longa, enquanto corria, desesperadamente, sobre a esteira que a levaria à plataforma do metrô. Ofegante, com a bolsa pendurada de um lado e uma mochila carregada de papéis do outro, acelerou o passo rumo à escadaria.
Já no segundo degrau, avistou, dentro do túnel, a luz que sinalizava a chegada daquele que, mais uma vez, a conduziria à enfadonha jornada de trabalho na qual estava enclausurada há quase 20 anos. Conforme o veículo se aproximava e as pessoas caminhavam, sôfregas, em direção às marcações que indicavam o local onde as portas se abririam, seu coração retumbava um misto de angústia e medo. Uma nesga de razão tentava dizer, sem sucesso, que, em três minutos, haveria uma outra composição e ela poderia embarcar sem preocupação. Porém, cada partícula do seu corpo havia sido tomada pela dualidade: correr para atingir o objetivo ou parar e esperar. As portas de abrem e ela acelera feito um bêbado cambaleando sobre as próprias pernas. A boca seca, a vista fica meio turva, mas segue em frente. Era como se aquilo fosse o movimento mais importante de sua vida naquele momento. Ela tinha que conseguir.
A cada obstáculo de cimento transposto, uma imagem de sua vida de procrastinação. As ofertas de emprego recusadas por medo do desconhecido. Mais um degrau. O casamento desmarcado por não ter certeza do sentimentos. Mais uma degrau.
Os inúmeros convites de viagens com amigos declinados por sempre achar que melhor seria deixar para outra ocasião. E o momento nunca chegou. Mais um degrau. As pessoas que julgou sem nem ao menos ter dado oportunidade para conhecê-las. Mais uma degrau.
Os projetos que sonhou e jamais iniciou por não se achar boa o suficiente. Mais um degrau. As respostas que nunca teve coragem de buscar. Mais um degrau. Todas as crenças limitadoras que reuniu ao longo dos quase 50 anos de vida. Mais um degrau, mais um degrau, mais um degrau. E fim. Lá estava ela, ofegante e ainda hesitante sobre a quem daria a vitória daquela luta travada com os seus próprios fantasmas. Soa o alarme. Olha para aquele espaço aberto, diante dela, apinhado de pessoas que a encaram descrentes, curiosas, indiferentes. Era o momento de decisão. Seguir ou, mais uma vez, ficar inerte. Já estava quase na metade do caminho quando uma lágrima escorreu. Sentia que era preciso honrar o líquido supremo que iluminava o meu rosto naquele instante. Choraria, sim, muitas e muitas vezes, mas de orgulho. Orgulho pela história que eu aceitava e estava disposta a mudar. Então, num gesto muito rápido, atravessou a porta e agarrou-se, com toda a força, à barra de ferro que surgiu diante dela. Ergue a cabeça e busca o olhar de cada um que estava ao seu redor. Sim, aquele era o seu presente, a nova jornada que construiria em direção à essência que havia deixado de lado por quase cinco décadas. O alarme soa novamente e as portas se abrem. Em poucos minutos, chega ao seu destino e desce na estação seguinte.
De fora, um movimento tão breve e quase desprezível como tempo decorrido. Mas, dentro dela, foi como se tivesse levado toda uma vida para chegar até ali. De volta para o seu verdadeiro Eu.
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